Pré-história

Uma viagem no tempo

Davidson Panis Kaseker

Uma investigação e a valorização do patrimônio cultural do sudoeste paulista, que remetem a períodos remotos da existência do homens em território brasileiro, dão um precioso passo com o olhar de Pedro de Azevedo, que reaviva o interesse público sobre a vida e a cultura ancestrais dos homens que há milhares de anos habitavam esse chão.
As imagens incrustradas nas paredes das cavernas, bem como as peças e utensílios artesanais, revelam traços culturais de uma civilização ainda primitiva, mas que avança no domínio de técnicas e processos artesanais. A despeito das dificuldades para interpretar e compreender o significado dessas inscrições rupestres, indubitavelmente elas testemunham a emocionante, anônima e singular aventura do homem pré-histórico em busca da expressão imemorial.
Conhecer a nossa pré-história é uma maneira de aprofundar o conhecimento de nós mesmos. Conhecer a cultura ameríndia é mergulhar nas raízes ancestrais de nossa formação cultural ainda cifrada na herança fascinante legada por meio de peças cerâmicas, pinturas rupestres e artefatos líticos que nos auxiliam a perscrutar a dimensão humana e artística de uma civilização que aprimora técnicas e estratégias na luta pela sobrevivência - incluindo o domínio do fogo, o polimento de pedras, as técnicas de caça e de plantio agrícola – próprias do processo de sedentarização favorecido de um lado pela relativa escassez de alimentos propiciados pela caça e de outro lado pela crescente importância da agricultura rudimentar.
Voltar-se para o passado significa antes de tudo buscar um novo olhar que produza respostas a problemas de hoje, com o resgate da relação entre o humano e a natureza. Uma tentativa de resgatar a ética extraviada no caminho da História e da cultura, a solidariedade e o respeito à diversidade biológica, bem como o reencontro de um pacto extinto com a natureza.
De Lucy – fóssil de 3,8 milhões de anos descoberto em 1974 na Etiópia -, passando pelo crânio de Luzia de 11.500 anos, descoberto na década de 70 na Lagoa (MG), até chegar aos restos mortais da índia de aproximadamente 25 anos que viveu entre os anos de 1200 a 800 d.C. encontrados no Sítio Fonseca, em Itapeva (SP), na década de 60, a humanidade deu passos fantásticos. Seguir as pegadas desse caminho é uma aventura que reserva importantes capítulos para as futuras gerações, a partir do desenvolvimento de tecnologias muito mais precisas e novos métodos de investigação científica que ainda estão por ser desenvolvidos.
A beleza de valores estéticos preservados pelo acervo arqueológico de alguma forma deve contribuir para a superação de um preconceito que marca a sociedade brasileira desde o período de colonização européia, que vê os povos indígenas como deficientes sociais. Até hoje, grupamentos indígenas que preservam a genética de civilizações remotas não são tratados como cidadãos brasileiros e estão discriminados, sem direito a receber uma educação que lhes permita conservar sua identidade cultural.
A descoberta arqueológicos na região de Itapeva, como o Sítio Fonseca e o Sítio Fracarolli, dentre outros, coloca o sudoeste paulista em lugar de destaque no panorama científico brasileiro. Não se pode comparar ao fenomenal acervo do Parque Nacional da Serra da Capivara, no sudoeste do Piauí, onde se encontra a maior concentração de pinturas rupestres por quilômetro quadrado do mundo, mas se sobressai por dar início ao processo de interiorização da arqueologia paulista.
Ainda desconhecidas do grande público, as inscrições rupestres encontradas em Itapeva estão inseridas na tradição geométrica meridional, caracterizadas por gravações retocadas com pinturas e associadas à cultura Taquara-Itararé com temática reduzida em comparação com as existentes nos sítios da tradição nordeste. Mesmo assim comprovam que a capacidade de representar graficamente idéias e criações abstratas aparece contemporaneamente em todos os continentes do orbe terrestre, denunciando a evolução cultural do Homo Sapiens em diferentes regiões, climas e ecossistemas.
Pertencentes a uma época em que a tradição oral o principal instrumento da memória capaz de preservar conhecimentos essenciais para a sobrevivência e também para responder a indagação transcedentais, as inscrições rupestres comprovam que a capacidade de criar símbolos gráficos associados a conteúdos de memória traduz um comportamento próprio de civilizações que compartilham conhecimentos e evoluem a partir da transmissão do saber.
Nas inscrições rupestres de Itapeva, afloram representações antropomórficas, zoomórficas e símbolos por vezes indecifráveis de caráter hermético, cuja importância ainda está por ser dimensionada na medida que as pesquisas sobre gravuras e pinturas pré-históricas no Brasil são pouco desenvolvidas para que possam nortear a reconstituição da nossa pré-história.
A abundância de urnas funerárias de origem Kaingang e Guarani não é menos instigante. Sabe-se que a utilização de urnas funerárias revela uma preocupação constante do Homo Sapiens no sentido de respeitar e proteger os mortos e indica, talvez, o cuidado para garantir a concórdia com os espíritos vivos dos que se foram. Se não, por que não lhes abandonar os restos mortais como fazem todas as demais espécies animais?
Sepultar os mortos é característico do comportamento social do ser humano que o diferencia e lhe atribui um mundo espiritual. É possível conjecturar que o enterramento dos mortos em posição fetal dentro de urnas cerâmicas, possivelmente depois de inumados, pressupõe um ritual fúnebre de tradição milenar registrada pela etnografia em diferentes regiões e cronologias que se baseia quase sempre no culto aos espíritos dos antepassados no sentido d elevação espiritual.
Enfim, o olhar que se abre a partir desta obra de Pedro Azevedo para as manifestações culturais pré-históricas do sudoeste paulista certamente gera, sobretudo, mais dúvidas do que respostas. A única certeza é a de que nessa viagem à pré-história poderemos encontrar as raízes de nossos sentimentos artísticos traduzidos por uma universalidade singular que atravessa os milênios.

Texto retirado do livro Pré-história de Pedra Chata

 

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