Pré-história

Resgatando o passado

Silvio Alberto Camargo Araújo

As origens dos primeiros habitantes do continente americano são praticamente uma unanimidade no mundo científico. Eles teriam vindo do nordeste da Ásia, através de diversas levas migratórias, acessando-o pelo Canadá e Estados Unidos, após a travessia do Estreito de Bering. Esses primeiros habitantes do continente viviam de modo nômade, caçando, pescando, coletando mariscos e frutos silvestres, por isso são denominados caçadores-coletores. Fabricavam instrumentos de pedra, por meio do lascamento, produzindo pontas de flechas, machadinhas, raspadores e outros instrumentos de gumes cortantes que utilizavam em seu dia-a-dia para caçar, descarnar os animais e, talvez, para o enfrentamento entre grupos rivais. Quando isso teria ocorrido, não é um consenso. Vários sítios arqueológicos, porém, foram encontrados por todo o continente americano com datas próximas ou superiores a 20 mil anos. Alguns arqueólogos defendem datações superiores a 40 mil anos para a colonização da América.
No Estado de São Paulo, a presença de caçadores-coletores varia de região para região. O período em que estiveram presentes varia entre 7 a 11 mil anos.
Em Itapeva, não temos datações que possam situar cronologicamente esse grupo. Entretanto, temos alguns artefatos encontrados que comprovam a existência dos caçadores-coletores.
Não se sabe exatamente como e quando desapareceram ou se foram assimilados por novas levas migratórias.
Já num período bem mais próximo, cerca de 2 mil anos atrás, surgem dois grupos distintos na região: Kaingangs e Guaranis. Apesar de caçar, pescar e coletar frutos da floresta, havia uma característica diferencial no modo de vida em relação aos caçadores-coletores; eles também utilizavam a agricultura de subsistência. Derrubavam e queimavam pequenos trechos de florestas, removiam a terra e em seguida semeavam espécies de plantas já domesticadas como a mandioca, milho e algodão, razão pela qual são chamados de agricultores pré-coloniais.
O que sobrou destes dois grupos distintos são os vasilhames nos quais processavam alimentos ou urnas funerárias, nas quais enterravam seus mortos, como é o caso dos guaranis. Também lascavam a pedra, mas não tanto e tão bem quanto os seus antecessores. Restos de fogueiras contendo carvão, cinza, restos alimentares, fragmentos cerâmicos, raramente urnas funerárias ou vasilhames inteiros e pinturas rupestres são a herança desses povos.
No Estado de São Paulo, pinturas e gravuras rupestres são raras, porém o município de Itapeva conta com pelo menos quatro abrigos sob rochas, que até o momento foram atribuídos aos grupos de agricultores pré-coloniais. São eles os abrigos Fabri I e II, no Bairro das Pedras, e os abrigos Itapeva e da Santa, localizados no canyon do Itanguá.
Para se ter uma idéia da importância e influência dos índios no momento da colonização da região, vários municípios herdaram nomes indígenas, inclusive Itapeva, que deriva de Itapeva da Faxina, nome ligado à estrutura da língua tupi para designar o relevo local, sendo a corruptela de Yta-pé-bae-chaci-na, morro chato e enrugado. De yta, pedra, penha; pé, ser chato, plano; bae (breve), partícula de particípio, significando o que; chachi, enrugar, franzir, com sufixo na (breve), para formar supino. É uma alusão a serem campos com depressões ou concavidades continuadas e irregulares, muitas delas semelhando rugas, que são denominadas tembé, ou temb-é, que significa: concavidade ou que é côncavo. Segundo relatos dos antigos moradores da região, um desses tembé serviu de cemitério a indígenas mortos.
As pinturas, gravuras e artefatos ali existentes ficaram no anonimato por centenas de anos nas paredes dos abrigos sob rocha dos tembés, ou mesmo enterrados, até serem descobertos por pesquisadores como Orville Derby, no ano de 1878, dentre tantos outros que se seguiram, e agora são novamente trazidos à luz por esse trabalho, resgatando parte do que fomos, pensamos e produzimos no passado.
O que teria levado esses povos a gravar ou pintar nos paredões de arenito de Itapeva e região? Talvez ritos religiosos, talvez a necessidade de representar o seu cotidiano ou de perpetuar a própria cultura, talvez a necessidade intrínseca do ser humano de se manifestar artisticamente.
Enfim, ao enfrentar o desafio de registrar algo tão antigo e, ao mesmo tempo, novo para os itapevenses, Pedro Azevedo contribui para a apropriação consciente de parte de seu patrimônio arqueológico, assim fortalecendo a valorização da nossa cultura compreendida como múltipla e plural.

Silvio Alberto Camargo Araújo
é professor e arqueólogo

 

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