Revolução de 30 e 32

O Diário da Revolução

Para que comemorar com festejos um acontecimento tão fúnebre, no qual imperou a intolerância e a insensatez, a ponto de levar os brasileiros a uma guerra civil? O questionamento é feito por João Brazílio, autor de A Guerra das Elites (FS Editora, 2006), que chega a achar um disparate o fato de o dia 9 de julho, data da eclosão do movimento constitucionalista paulista, ser feriado estadual comemorado com grandes festejos e desfiles. Esta indignação se soma às palavras do general Euclides Figueiredo, combatente constitucionalista exilado, numa entrevista em 1935: “Para que festejar o dia em que acendeu no Brasil o facho de tão mortífera guerra entre irmãos? Por que cavar ainda mais, em comemorações estridentes, o sulco que ficou em nossos corações com aqueles noventa dias de cruenta campanha, os brasileiros contra os brasileiros, em que, com denodo de uns se media a bravura dos outros? Mais valia procurar esquecer a luta, em homenagem que deve subsistir entre filhos de uma mesma pátria.”
De fato o episódio envolve dias sombrios e não é por menos que o único ex-combatente de Itapeva ainda vivo, “seu” Toniquinho Santos, recusa-se a dar entrevistas e a relembrar o assunto. O esclarecimento desses trágicos acontecimentos, que marcaram a nossa história com um grande número de mortos e elevado custo social, continua ainda hoje suscitando historiadores a retornarem a essa página polêmica, quer seja para esclarecer equívocos e resgatar pormenores importantes, quer seja para preencher lacunas na avaliação de tão relevante marco na história da ainda jovem democracia brasileira.
Um dos grandes equívocos é que a história - e não os historiadores - tem sido injusta com Itararé e região, celebrizada pela “batalha que não houve”, como se as forças paulistas tivessem se acovardado diante das tropas federais. Ainda que o grande palco dos combates tenha acontecido, principalmente, em Buri, não apenas em Itapeva e mesmo em Itararé foram muitas as escaramuças contra os soldados gaúchos, recebidos à bala em trincheiras cavadas em locais estrategicamente escolhidos para impedir o avanço das tropas adversárias.
A defesa da legalidade empreendida pelas forças paulistas - que tinha por objetivo pugnar pelo retorno do País ao regime constitucionalista deposto em golpe de Estado por Getúlio Vargas em 1930 - envolveu grande mobilização popular, a começar dos estudantes - nas figuras de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC), tombados como mártires no dia 23 de maio - como também por industriais e comerciantes que se colocaram a serviço da causa transformando as fábricas em unidades de produção de materiais bélicos como cartuchos de fuzis, bombas lança-chamas, explosivos, granadas, capacetes e uniformes. Escolas foram transformadas em enfermarias e os alimentos eram levados até as trincheiras por jovens e mulheres.
A narrativa destes dias sangrentos em Itapeva ganha contornos singulares por obra de um jovem itapevense, Pedro Marques Bonilha, filho do jornalista Átila Martins Bonilha (O Tempo), que registrou nas páginas de Tribuna Sul Paulista as anotações daquele que viria a ser um inédito “Diário da Revolução”. Veja a seguir, com exclusividade, trechos desse registro histórico:
Dias 15, 16, 17, 18 e 19 de julho/32 - A despeito da eclosão revolucionária datada do dia 9 a situação continua calma na cidade.
20 de julho - A chegada a Faxina de uma caravana de altas autoridades do Estado, chefiada pelo secretário de Justiça de São Paulo, provoca pânico na população, diante da constatação da batalha iminente.
21 de julho - Os paulistas organizam-se com todas as forças disponíveis, formando uma tropa calculada em 3.500 homens, determinados a defender o Estado de Direito.
22 de julho - Às 15 horas, um piquete de cavalaria das forças ditatoriais entrava na cidade, que se encontrava em grande parte esvaziada devido a inúmeras famílias terem se refugiado em sítios e matas por temerem saques e represálias. Os poucos habitantes que restavam observam assustados a passagem das tropas gaúchas.
23 de julho - Continua o movimento das tropas na cidade e um avião paulista joga bombas na Estação Vila Isabel de Faxina. Foram oito bombas. O general Waldomiro Lima chega a Faxina e comanda as tropas federais em direção a Buri, onde se concentra a resistência das tropas paulistas.
24 de julho - Começa a requisição de animais, automóveis e outros recursos. Os hotéis e pensões estão lotados de oficiais e novos batalhões de tropas federais continuam a chegar.
25 de julho - A escassez de alimentos preocupa o comando das tropas aquarteladas na cidade.
26 de julho - Um avião paulista sobrevoa a cidade e joga panfletos assinados pelo General Bertoldo Klinger concitando os adversários da frente do Paraná a cessarem a luta armada.
27 de julho - Intensifica-se o movimento de soldados e oficiais pelas ruas de Faxina, que realizam nesse dia uma missa em sufrágio das vítimas tombadas nos campos de luta. Átila Bonilha, diretor de O Tempo, é intimado a comparecer à Escola Normal, hoje EM Dom Sílvio Maria Dario, onde se localizava o QG do Exército, para prestar depoimentos, acusado de defender os ideais paulistas.
28 de julho - Um avião paulista é metralhado quando sobrevoa a cidade. Logo em seguida, um outro avião paulista dispara contra o campo de aviação, situado onde hoje se localiza a Praça Carlos Flávio Vasconcelos, no Parque São Jorge.
29 de julho - Cerca de 300 prisioneiros paulistas, detidos na cadeia que funcionava no prédio da Avenida Acácio Piedade hoje ocupado pela Polícia Militar, recebem a visita de familiares faxinenses.
30 de julho - Um avião de reconhecimento ruma para Ribeirão Branco e a população procura oferecer aos prisioneiros toda a assistência possível. O capitão Cysneiros chega de Buri com a notícia de que a cidade havia sido saqueada.
31 de julho - Os prisioneiros paulistas são conduzidos à Estação Sorocabana de Vila Isabel para dali seguirem em vagões de gado para Ponta Grossa (PR).
01 de agosto - O toque de clarim anuncia o início das atividades do dia e o chefe de Polícia de Faxina prende muitos cidadãos que palestravam pelas ruas. Foram cavadas trincheiras próximo ao Ribeirão Fundo para eventual defesa em caso de ataques das tropas paulistas. A cidade sitiada parece uma vasta caserna.
02 de agosto - Um avião federal de regresso de missão na região joga três bombas no solo. As explosões aterrorizam a população civil e também os militares.
03 de agosto - Em dia de intensa chuva, há notícias de ataques e contra-ataques em Itaporanga.
04 de agosto - Violenta tempestade desaba sobre Faxina. Pela manhã, um avião sobrevoa a cidade em grande altura e não pode ser identificado. Todos os telefones particulares foram desligados, sendo mantidos em funcionamento apenas os que prestam serviços públicos essenciais.
05 de agosto - Às 17 horas, três aviões paulistas arremessam poderosas bombas sobre o campo de aviação e os estilhaços atingem várias casas na Vila Nova, próximo à igreja da Piedade, cobertas por espessa nuvem de fumaça.
06 de agosto - Policiais de Santa Catarina alojam-se no Teatro Santana, localizado na esquina da Rua Pires Fleury com a Dr. Pinheiro, na Praça Anchieta.
07 de agosto - Novos ataques são feitos pela aviação paulista. A cidade vive dias tenebrosos, embora os ataques sejam dirigidos unicamente a alvos militares.
08 de agosto - Dois aviões paulistas arremessam bombas no campo de aviação.
09 de agosto - Foram detidos e encaminhados para Ponta Grossa os itapevenses Augusto Baptista do Canto, Dr. Albano de Souza, Leônidas Bonilha, José Martins Margarido, Artur do Amaral Camargo, Amador Pereira de Almeida e Leôncio Pimentel.
10 de agosto - Chegam Polícia do Paraná e mais tropas federais.
11 de agosto - Aviões efetuam acrobacias aéreas sobre a cidade.
12 de agosto - O campo de aviação é ampliado e corre a notícia de que São Paulo recusa um acordo de armistício.
13 de agosto - Todos os carros de praça e também os particulares são requisitados pelas tropas federais.
14 de agosto - Correm notícias de que Itapetininga fora tomada de assalto. A guerra também se faz no campo das informações.
15 de agosto - Chegam mais prisioneiros provenientes de Buri, onde houvera sangrenta batalha.
16 de agosto - Ouvem-se estrondos de canhões vindos dos lados da usina elétrica (Vila Maringá).
17 de agosto - As ambulâncias transportam feridos.
18 de agosto - É intenso o movimento de caminhões com armas e soldados.
19 de agosto - Soldados ditatoriais exibem pelas ruas capacetes de aço.
20 de agosto - Há notícias de lutas em Guapiara e Capinzal.
21 de agosto - Nada de anormal a registrar. O silêncio, no entanto, preocupa ainda mais.
22 de agosto - Telegrama informa que outros cidadãos faxinenses presos no dia 9 seriam conduzidos para Paranaguá (PR), de onde seguiriam pelo vapor Campos até o presídio de Ilha Grande.
23 de agosto - É negado salvo-conduto para a zona de Buri. O número de feridos na Santa Casa de Faxina é imenso.
24 de agosto - Novos prisioneiros chegam à cidade.
25 de agosto - Os prisioneiros recém-chegados são enviados a Ponta Grossa.
26 de agosto - Um grupo de artilharia procedente de Itaberá é assentado no matadouro municipal.
27 de agosto - Corre notícia de que, apesar de fragilizadas, as forças revolucionárias não aceitam a rendição. A cúpula do 8º Batalhão do Exército Brasileiro se aloja no Teatro Santana.
28 de agosto - A população é prevenida de que as tropas iriam fazer exercícios de tiro pelos arredores da cidade.
29 de agosto - Jornais de Curitiba (PR) trazem notícias de rendição, mas não merecem fé, pois é sabido que tropas paulistas continuam resistindo bravamente em Capão Bonito.
30 de agosto - A brigada gaúcha segue para Itaporanga, onde a resistência se mantém.
31 de agosto - Alcino Bueno segue para Curitiba para comprar remédios para as farmácias de Faxina.
1º de setembro - Nenhuma notícia sobre as negociações pelo fim do confronto.
2 de setembro - A cidade de Capão Bonito finalmente foi tomada.
03 de setembro - O General Waldomiro manda imprimir um manifesto dirigido aos seus comandados, exortando-os à vitória.
04 de setembro - A Praça Anchieta está repleta de soldados ditatoriais.
05 de setembro - São requisitados para servirem como hospitais o Clube Operário, o Gabinete de Leitura Itapevense e o Clube Treze de Maio.
06 de setembro - Há esperanças de que a revolta termine com uma eventual renúncia de Getúlio Vargas.
07 de setembro - Toque de alvorada confirma que as tropas federais vão continuar aquarteladas na cidade.
22 de setembro - A vanguarda gaúcha atravessa o Paranapanema e os paulistas recuam em direção a Itapetininga, terra do presidente eleito Júlio Prestes e último reduto da resistência.
23 a 30 de setembro - No Rio das Almas, após ferozes confrontos, as forças constitucionais não conseguem manter posição.
02 de outubro - Após três meses de lutas, muitas mortes e prisões, a Revolução Constitucionalista chega ao fim. Apesar da rendição dos paulistas, os ideais revolucionários são vitoriosos.
As tropas federais se retiram gradativamente e os voluntários aos poucos vão retornando a suas casas e a cidade de Faxina volta à normalidade. É hora de recomeçar as atividades rotineiras e superar traumas e seqüelas. Astuto, Getúlio Vargas adota medidas pacificadoras e busca aliados. Um ano depois da revolução São Paulo tinha mais getulistas do que um ano antes dela.
Em 3 de maio de 1933, foi eleita uma Assembléia Constituinte, com o voto secreto e o voto feminino, para a elaboração de uma nova Constituição, que foi aprovada em 16 de julho de 1934 - a terceira do Brasil - bem mais democrática que as anteriores.

Fonte: Jornal Folha do Sul

 

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