História de Itapeva

Itapeva – da sua história

Genésio de Moura Muzel

Foto extraída do livro Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo

Vista geral da Faxina em 1927

Um estudo do período inicial da História do Sudoeste Paulista, região que tem hoje Itapeva como centro, leva-nos a considerar as várias fases pelas quais passou o processo de seu desenvolvimento.
1ª fase – A região nos primeiros tempos do Brasil-Colônia.
2ª fase – O nascimento da Paragem da Itapeva da Faxina.
3ª fase – A fundação “de novo” da Vila Faxina.
4ª fase – A mudança da Vila da Faxina para o lugar da Paragem Itapeva da Faxina.

1ª Fase – A região nos primeiros tempos Brasil-Colônia

Quando o Sudoeste Paulista ainda não havia sido parmilhado pelo homem branco, os naturais da terra – os índios como eram impropriamente chamados – já o atravessam com muita freqüência, pois o território era cortado pelo famoso Peabiru (o caminho deve ser feito), também conhecido como Caminho de São Tomé.
O Peabiru, uma velha rota indígena, era uma via transcontinental que vinha do litoral paulista – São Vicente. Do Planalto Paulista este caminho levava para o Sul, atravessava o Sudoeste Paulista, seguindo, mais ou menos a rota seguida pela estrada de ferro Fepasa. A uns vinte quilômetros aquém a atual cidade de Itapetininga havia uma ramificação que demandava Cananéia. A seguir, dos campos do Sudoeste Paulista atingia a região ocupada atualmente por Itapeva de onde partia uma ramificação que alcançava “Santo Antonio das Minas do Piai”. Dos campos, hoje atual Itapeva, avançava chegando ao Paraná, onde havia várias ramificações, uma dirigindo-se a Assunção no Paraguai e outra dirigindo-se as minas de prata em Potosi, então território do Peru.

Segundo o Dr. Waschington Luiz, grande estudioso de nossa História. O Peabiru era a maior via de penetração do território Sul Americano. Foi em 1603 que começou a exploração deste caminho entre Guaira e São Vicente. (Ver. De História da USP, vol 39, fls. 71).

O ilustre historiador paulista Dr. Gentil de Moura da notícias em interessante trabalho sobre o misto de soldado e aventureiro, Ulrich Schimidt que percorreu o Peabiru de Assunção no Paraguai alcançando São Vicente em companhia de vinte índios carijós, conhecedores do trajeto. Daí retornou a Europa. O aventureiro partiu no dia 26 de dezembro de 1552 chegando a São Vicente a 13 de junho de 1553.

Esta vereda foi usada por muitos bandeirantes nas suas andanças com destino ao Sul.

Mas esta trilha indígena foi fechada por Thomé de Souza em 1653, pelo medo que os espanhóis causavam aos portugueses, temerosos de uma invasão, pois enquanto estes tinham a linha demarcatória do Tratado de Tordesilhas passano por Laguna, para os espanhóis este corte se dava em Iguape, no litoral paulista.

Ainda que os índios não tivessem um traçado fixo para as suas trilhas, elas foram usadas, mais tarde, pelos bandeirantes.

Fechada a velha trilha indígena em 1653, começou ela a ser novamente explorada pela pressão do comércio, a partir de 1693, quando do início do comércio entre o Planalto Paulista e Curitiba, já no ciclo do ouro.

2ª fase – O nascimento da Paragem de Itapeva da Faxina

Fechada a vereda indígena nos primeiros tempos do Brasil-Colônia, voltou ela novamente a ser explorada a partir de 1693, quando tem início o comércio de São Paulo com Curitiba. A partir desta data os criadores de gado começam a usá-la tangendo suas manadas pelos centros de consumo – São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Inicia-se o intercâmbio comercial entre o Sul e o Planalto.

Em 1704, Bartolomeu Pais, genro de Pedro Taques, localiza-se no Iapó (Castro). Era uma fazenda com grande número de escravos.

Em 1705 era proposto na Câmara de Curitiba que se cobrasse impostos de quem exportasse gado e cavalgadura para São Paulo.

Bartolomeu Pais – o bandeirante das Minas de Cuiabá, é sempre o mesmo – o grande preocupado com os caminhos do Brasil-Colônia. A ele deve o Sudoeste Paulista o reavivamento da velha trilha indígena que mais tarde seria a Estrada das Boiadas.

Em 1712, os paulistas intensificam o comércio com Curitiba, pois o povoamento do Brasil se fez sob o estímulo das possibilidades econômicas.

Em 1720 já havia a “Fazenda São Pedro do Itararé”.

Em 1715, o Capitão Mor Joseph de Góes Morais obtém carta das terras (sesmaria) entre a Paragem da Escaramussa e o Taquay Mirim. Foi nestas terras que surgiu a Paragem de Itapeva da Faxina.

A partir de 1735 começam as referências aos Pedrosos, que são os primeiros a se localizarem na região, estabelecendo-se no Paranapitanga Francisco Xavier Pedroso.

Reaberta a velha estrada no início do setecentismo, foi incorporada à nossa vida social e econômica como via de comunicação entre a terceira e quarta década do século XVIII, quando começa a estabelecer-se o maior sistema de transporte que o Brasil-Colônia conheceu – a tropa de muares. Como via de comunicação de abastecimento das Gerais, tal sistema tornava os caminhos mais conhecidos, assegurando o comércio com o Sul mantendo o intercâmbio de mercadorias. Quando isto aconteceu, o paulista estava deixando a preia ao índio, passando a explorar o comércio de gado, alimento e muares para o abastecimento das Gerais. Foi então que começaram aparecer as Paragens ao longo do antigo Peabiru.

Entre 1720 e 1730, começam a aparecer os primeiros núcleos de população. Surge o Arraial de Nossa Senhora da Conceição do Paranapanema ( Capão Bonito) que em 30 de maio de 1728 é visitada pelo governador Caldeira Pimentel, quando concedeu sesmaria na região à várias pessoas. Outro núcleo populacional, que surge quase ao mesmo tempo, é o Arraial de Santo Antonio das Batéias (Atual Apiaí). Em ambos os casos, o motivo do surgimento era o mesmo – a busca do ouro no Paranapanema e no Vale do Ribeira. A expansão povoadora que formou a “célula mater” do Apiaí foi comandada por Francisco Xavier da Rocha, que com seus 150 escravos, escolheu o lugar denominado Rocinha, para a sua sede, de onde mais tarde mudou-se para outro local.

A partir de 1730, começam as primeiras referências aos campos da região da Paragem de Itapeva da Faxina, passando a integrar a Freguesia de Santo Antonio das Minas do Apiaí.

O povoamento da região do Apiaí, a exploração da região via litoral-interior, deu-se como foi comum em todo o Brasil.

É, pois a partir de 1730 que começam a surgir as paragens, locais onde os viajantes param para descansar e pernoitar. A jornada diária da tropa é que estabelecia a paragem. A partir de 1730 – 1735 começam a aparecer as paragens quase que ao mesmo tempo. Surgem as paragens dos Pedrosos, à beira do Apiaí-Guassu de Itapetininga, da Escaramussa de Itapeva da Faxina, do Pirituba, e outras. A Paragem da Faxina surge à beira do caminho do Peabiru, no entroncamento com a trilha que vinha de Iporanga via Apiaí e através da qual o Sudoeste Paulista conheceu o sal, a carne seca e aguardente. A região retalhada em sesmarias. A Paragem da Faxina nasceu pois, naturalmente no entroncamento de duas vias de comunicação, não tendo um fundador, mas sendo resultado do comércio entre o Planalto Paulista, o Sul e o Apiaí.

3ª Fase – A fundação “de novo” da vila da Faxina

Sua Majestade, Dª Maria I, Rainha de Portugal, em 26 de janeiro de 1765, ordenou à D. Luiz de Souza que era conveniente ao seu Real Serviço que se erguessem vilas nas partes mais convenientes para nelas congregar o povo em povoações civis. Foi à vista desta determinação que D. Luiz de Souza nomeou Antonio Furquim Xavier Pedroso para primeiro povoador e diretor da nova povoação em 11 de junho de 1766. A idéia de fundar de novo uma povoação foi um erro. Furquim diz em carta de 28 de setembro de 1766, ao Governador da Capitania “que na sua chegada ao distrito da Faxina se alegrarão os povos com a certeza que se lhes deu do estabelecimento da nova vila ...e mandarão pedir licença para erigirem a Igreja e que se tinham oferecido 32 casais que se acompanham de 179 pessoas e que além destas, chamara mais 68 pessoas”. Acrescentava Furquim que o povo ficara com ânimo deliberado de por em execução a idéia.

A Vila da Faxina começa sua história com a ordem de D. Luiz de Souza para que o Ouvidor “providencie a ereção da Vila da Faxina a que consta do seguinte: “Achando que a nova povoação da Faxina que mandei fundar de novo...”. Aí está a prova que a Vila da Faxina foi levantada em outro lugar e não na Paragem de Itapeva da Faxina.

É na verdade, o sítio escolhido pelo Cap. Antonio Furquim Xavier Pedroso e pelo vigário de Paranapanema.

A deliberação de fundar de novo mostra um conflito entre a escolha de Furquim e os proprietários de terras na região. A nova Vila ficou longe do Peabiru, via de comunicação única entre o Planalto e o Sul. Vendo que havia cometido um erro, Furquim fez a estrada para o Sul passar por dentro da Vila.

E, assim, no dia 20 de setembro de 1769 foi lavrado o auto de fundação, e se erigiu o Pelourinho, sinal de jurisdição.

Aconteceu, entretanto, que a grande maioria da população da Paragem de Itapeva da Faxina não compareceu à solenidade de fundação.

Thomé de Almeida Pais que desde 1755 era o sesmeiro das terras da Paragens da Faxina não compareceu.

4ª fase: A mudança da Vila da Faxina para a Paragem de Itapeva da Faxina

Mas apesar das divergências que podem ter havido, o povoador nomeado – Antonio Furquim Xavier Pedroso deu início à tarefa e solicitava a autorização para nomear e fazer cabos para melhor expedição da fatura da igreja. As obras continuam, assim em 20 de setembro de 1769, foi lavrado o termo de fundação e erigido o pelourinho, sinal de jurisdição. A fundação da nova Vila da Faxina, não teve o apoio dos moradores da Paragem de Itapeva da Faxina.

Como a ordem de D. Luiz, mandando formar a nova Vila de Faxina, ficou claro que os governantes não quiseram aproveitar o núcleo já existente na Paragem de Itapeva da Faxina.

Não tardou muito e o governador, por portaria, exigia que Antonio Furquim Pedroso erigisse os prédios públicos, dando-lhe o prazo de seis meses para o término das obras, sob pena de mudança da Vila.
A ordem não foi cumprida.

Novamente o Governador dá novo prazo para o término das obras públicas.

Novamente as ordens não são cumpridas.
O Governador toma então a deliberação de transferir a sede da Vila da Faxina para a Paragem de Itapeva da Faxina, transferindo o pelourinho, sede de jurisdição.

Foi, então, oficializada a paragem com o nome de Vila de Itapeva da Faxina. Isso aconteceu no ano de 1785.

Genésio de Moura Muzel foi presidente Emérito do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Itapeva.

Texto extraído do jornal Tribuna Sul Paulista do dia 20 de setembro de 1992 – Edição especial de aniversário.

 

Home Page

IHGGI - Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Itapeva